Em 10 de outubro de 1992, um delinquente morreu atropelado salvando uma criança e virou detetive espiritual na Fuji TV. Hoje, 34 anos depois, YuYu Hakusho voltou a ser assunto nas redes, com fã relembrando o Torneio das Trevas e comparando a série com Dragon Ball Z. Mas a história por trás da série é tão intensa quanto as lutas, e tem um final que o próprio autor chamou de egoísta.
O anime, do estúdio Pierrot, teve 112 episódios exibidos no Japão entre outubro de 1992 e janeiro de 1995, segundo a Dublapédia. Ele adaptava o mangá de Yoshihiro Togashi, publicado na revista Weekly Shonen Jump. E é no mangá que estão os bastidores mais surpreendentes.

“Terminei YuYu Hakusho por egoísmo. Desculpem.”
Em agosto de 1994, logo depois do fim do mangá, Togashi distribuiu na Comiket de verão, em Tóquio, um fanzine oficial chamado Yoshirin de Pon!. Nele, escreveu um texto chamado algo como “Sobre terminar YuYu Hakusho: olhando para trás, para um fracasso”. O trecho a seguir está na tradução publicada pela YuYu Hakusho Wiki, em tradução livre nossa para o português.
Togashi conta que o fim já estava decidido desde dezembro de 1993, “ou melhor, foi uma decisão que eu impus à redação”. Dos cerca de 50 motivos, ele destacou três: o corpo, o que pensava sobre desenhar mangá e a vontade de fazer outras coisas além de trabalhar. Ou seja: descansar, dormir e cuidar dos hobbies.
O motivo físico assusta. Ele diz que, até o Torneio das Trevas, tinha meio dia de folga por semana para recuperar o sono. Quando precisou fazer um one-shot de 31 páginas junto com páginas coloridas, o coração começou a doer toda vez que ficava sem dormir. A frase dele resume tudo: “Não quero morrer de excesso de trabalho.”

As lutas que ele desenhou sozinho na véspera
Agora o bastidor que muda o jeito de olhar algumas das cenas mais famosas. Para aliviar o estresse de não estar satisfeito com o próprio trabalho, Togashi passou a desenhar capítulos inteiros sozinho, sem assistentes. Ele cita Karasu contra Kurama, Yusuke contra Sensui e o encontro de Yusuke com Raizen. E admite que as duas últimas foram terminadas em meio dia, antes do prazo, como um leitor chegou a perceber e criticar numa carta.
Na mesma publicação, numa entrevista, ele contou que foi durante a luta contra Sensui que pediu pela primeira vez à revista para encerrar a série: não queria mais desenhar e sentia náusea só de sentar para trabalhar. Os personagens favoritos dele? Itsuki e Mukuro. O menos favorito: Keiko, por ser “uma personagem muito típica de mangá”.
Togashi também conta que queria “desconstruir” os personagens, e que a Jump recusou. Sem força para repetir a mesma fórmula, preferiu sair. E fechou o texto assim: “Terminei YuYu Hakusho por puro egoísmo. Desculpem.”
Opinião da redação: é impossível ler isso hoje sem pensar nas longas pausas de Hunter x Hunter. O autor que pediu desculpas por terminar uma série em 1994 é o mesmo que, décadas depois, ainda é cobrado por não terminar outra. Na nossa visão, o fim “corrido” de YuYu Hakusho envelheceu melhor do que muita gente diz: é curto, estranho e humano, e parece escrito por alguém que já tinha dado tudo.
No Brasil: o nome que quase foi “Cavaleiros do Além”
Aqui o bastidor é nosso. Segundo a Dublapédia, o anime foi licenciado em 1996 pela Tikara Filmes, que o vendeu para a Rede Manchete. E houve quem pensasse em rebatizar a série de “Cavaleiros do Além”, para aproveitar o sucesso de Cavaleiros do Zodíaco na mesma emissora. Felizmente, ficou YuYu Hakusho.
A dublagem acabou indo para o Rio de Janeiro, no então novato estúdio Audio News, porque o Gota Mágica, referência em animes na época, passava por problemas. Marco Ribeiro dirigiu e deu voz ao Yusuke, e o texto ganhou piadas e gírias brasileiras que viraram lenda, como “Rapadura é doce, mas não é mole não” e “Tô mais forte que o Popó”.

Outra curiosidade: no começo, o estúdio achou que Kurama era uma personagem feminina, por causa da aparência andrógina. Dubladoras chegaram a fazer teste para o papel, até perceberem o engano e chamarem Duda Ribeiro.
A estreia na Manchete foi em 24 de março de 1997, e a série ficou na grade até 31 de maio de 1999. Depois, passou pela TV!, futura RedeTV!, ganhou uma redublagem no mesmo estúdio, com quase todo o elenco original, e foi ao ar no Cartoon Network a partir de 2 de fevereiro de 2004, dentro do Toonami.
Por que ainda funciona, 34 anos depois
Na nossa opinião, porque YuYu Hakusho foi um shonen que teve coragem de mudar de ideia. Começou como história de fantasma com um herói morto, virou torneio de luta e terminou questionando quem são os monstros de verdade, com um vilão como Sensui. Tudo isso em 112 episódios, sem enrolação. Poucos animes da época envelheceram tão bem.
Resumo rápido
- Estreia do anime: 10 de outubro de 1992, na Fuji TV, com 112 episódios até janeiro de 1995
- Fim do mangá: decidido por Togashi em dezembro de 1993, por motivos de saúde e de vontade própria
- Bastidor: lutas como Yusuke contra Sensui foram desenhadas por ele sozinho, em meio dia
- Brasil: estreia na Manchete em 24 de março de 1997, com dublagem da Audio News
- Quase aconteceu: o título “Cavaleiros do Além”
Informações conferidas em 10/10/2026.
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Fontes: YuYu Hakusho Wiki (tradução de Yoshirin de Pon!, de Yoshihiro Togashi, 1994), Dublapédia e Dengeki Online (ilustrações oficiais dos 30 anos do anime). Conferido em 10/10/2026.






