A DC matou o Superman em 1992 porque precisou adiar o casamento dele com Lois Lane, que coincidiria com a estreia da série de TV Lois & Clark, e os roteiristas ficaram sem a grande história do ano. O roteirista Jerry Ordway vivia brincando nas reuniões de planejamento: “vamos matá-lo”. Um dia, a piada foi levada a sério. O resultado foi Superman #75, que chegou às lojas em 18 de novembro de 1992 e vendeu mais de 6 milhões de exemplares.
Pense no impacto: o herói mais famoso do planeta, aquele que sempre ganha, cai morto na última página. Não era um universo alternativo, nem sonho, nem clone. Pelo menos não naquele momento. E a notícia saiu dos gibis para os telejornais. Muita gente que nunca tinha comprado uma HQ correu para a banca.
O casamento que não podia acontecer
No começo dos anos 90, as revistas do Superman estavam se encaminhando para o momento mais esperado em décadas: Clark Kent tinha pedido Lois Lane em casamento e revelado a ela sua identidade secreta. Os roteiristas planejavam o casamento como o grande evento.
Só que, ao mesmo tempo, a rede americana ABC preparava uma série nova, Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, que estreou em 1993. A ideia foi que o casamento dos quadrinhos acontecesse junto com o da TV. Com o casamento adiado, os roteiristas precisaram de outro grande evento, e rápido.
A piada que virou roteiro
Segundo os relatos da equipe, Jerry Ordway tinha uma piada pronta para quando as reuniões de planejamento (os chamados “summits”) travavam: “vamos matá-lo”. Na reunião de 1991, ninguém riu. A roteirista Louise Simonson levou a ideia a sério, a sala começou a discutir o que aconteceria com o mundo sem o Superman, e a piada virou o plano.
A morte foi pensada como uma saga: o vilão chegaria aos poucos, passaria pelas várias revistas do Superman e o confronto final viria na edição #75. Dan Jurgens escreveu e desenhou a edição decisiva, com arte-final de Brett Breeding.
Apocalypse: um vilão criado para matar
O responsável pela morte precisava ser diferente de tudo. Nada de gênio do crime como Lex Luthor: a equipe queria uma força bruta, um monstro sem discurso, sem plano, só destruição. Assim nasceu Doomsday, chamado no Brasil de Apocalypse.
Ele aparece de verdade pela primeira vez em Superman: The Man of Steel #18, preso numa espécie de roupa de contenção, e vai destruindo tudo pelo caminho até Metrópolis. A Liga da Justiça tenta pará-lo e é atropelada.
Superman #75: uma edição sem diálogos inúteis
A saga foi montada como uma contagem regressiva de quadros: as edições anteriores iam diminuindo o número de quadros por página (quatro, depois três, depois dois), até a edição #75, contada inteira em splash pages, as páginas com uma única imagem gigante. Cada página é um soco. A sensação é de câmera lenta. No final, Superman e Doomsday trocam o último golpe, e a última imagem é uma página tripla com Lois chorando sobre o herói nas ruínas da cidade.
E a capa? A versão mais famosa vinha num saco plástico preto com o “S” sangrando, junto com uma braçadeira preta de luto, um pôster, selos e um obituário do Planeta Diário. Era um pacote para colecionar, e as pessoas compraram aos montes, muitas vezes duas ou três cópias.
Por que vendeu tanto
Superman #75 vendeu mais de 6 milhões de exemplares, um dos maiores sucessos de venda dos quadrinhos americanos. Três coisas explicam isso:
- A notícia saiu da bolha. Telejornais, jornais e revistas noticiaram a morte, e gente que nunca lia gibi foi às bancas.
- A febre de colecionador dos anos 90. Era a época em que muitos compravam HQ como investimento, acreditando que valeria uma fortuna no futuro.
- A dúvida. Será que ele volta? Ninguém sabia.
Opinião de fã: a febre de colecionador acabou mal. Edições “históricas” foram impressas aos milhões e por isso nunca ficaram raras, e a bolha estourou alguns anos depois. Se você guardou a sua edição do saco preto esperando ficar rico, a gente sente muito.
O Reinado dos Supermen
Depois do funeral, a DC fez algo esperto: colocou quatro substitutos nas revistas, cada um dizendo, de algum jeito, ser o “novo Superman”. Um adolescente clonado, um engenheiro de armadura chamado Aço, um Superman frio e violento e um ciborgue. A saga ficou conhecida como O Reinado dos Supermen.
Os leitores ficaram discutindo qual era o verdadeiro. E aí, claro, o original voltou.
E o casamento?
Lois e Clark finalmente se casaram nos quadrinhos em Superman: The Wedding Album, publicado em dezembro de 1996. A data foi pensada para coincidir com o casamento da série de TV, exatamente como o plano original. A morte do Superman, no fim das contas, foi uma história que só existiu porque um casamento precisou esperar.
Da HQ para as telas
A morte do Superman virou animação mais de uma vez, como Superman: Doomsday (2007) e A Morte do Superman (2018), seguida de O Reinado dos Supermen (2019). No cinema, Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) também trouxe o Apocalypse e a morte do herói.
Teoria (só teoria!): e se ele não tivesse voltado?
É impossível imaginar a DC sem o Superman por muito tempo, e essa foi a graça. A morte ensinou à indústria que até o herói mais intocável pode cair, e também que quase ninguém fica morto nos quadrinhos. Quem pagou a conta dessa lição foram os leitores, que aprenderam a desconfiar de toda morte “definitiva”.
Quer outro caso em que a morte de um herói virou evento? Conheça a votação por telefone que decidiu o destino de Robin em Uma Morte em Família. E teste se você sabe separar as editoras no quiz Marvel ou DC.
Fonte de apoio: Superman #75 na Wikipédia em inglês (números de venda e datas).
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