Em 1988, a DC Comics deixou os leitores decidirem por telefone se Robin (Jason Todd) deveria viver ou morrer na saga Uma Morte em Família, e a morte venceu por apenas 72 votos: 5.343 contra 5.271. A história saiu em Batman #426 a #429, escrita por Jim Starlin e desenhada por Jim Aparo. O Coringa espanca Jason com um pé de cabra e o deixa num galpão com uma bomba. O resto você já sabe, ou vai saber agora.
Imagina pegar o telefone fixo da sala, discar um número 0900 e decidir o destino de um super-herói. Parece coisa de reality show, mas aconteceu bem antes da febre dos reality shows. E até hoje tem gente que se pergunta: se 37 pessoas tivessem mudado de ideia, como seria a história do Batman?
Quem era Jason Todd
Jason foi o segundo Robin, depois de Dick Grayson virar Asa Noturna. Na versão que valia em 1988, ele era um garoto de rua de Gotham que Batman encontrou roubando os pneus do Batmóvel. Batman viu nele potencial (e raiva) e o levou para a mansão.
O problema é que muitos leitores não gostavam dele. Jason era impulsivo, desobediente e violento, bem diferente do Robin alegre de antes. O editor Denny O’Neil percebeu que o público estava dividido e teve uma ideia arriscada: deixar os próprios leitores decidirem.
A votação: dois números e 35 horas
No fim de Batman #427, Jason está ferido nos escombros de uma explosão. Na contracapa, um anúncio mostrava Batman carregando o garoto e avisava que Jason podia morrer, mas que o leitor poderia “evitar isso com um telefonema”. Eram dois números 1-900, os serviços pagos americanos:
- um para Robin viver;
- outro para Robin morrer.
As linhas ficaram abertas por 35 horas, a partir das 9h (horário de Nova York) de 15 de setembro de 1988, nos Estados Unidos e no Canadá.
O resultado foi apertadíssimo: 10.614 votos, com 5.343 pela morte e 5.271 pela vida. A diferença foi de 72 votos.
O boato do computador
Uma diferença tão pequena gerou suspeita. Denny O’Neil contou, anos depois, ter ouvido falar que um advogado teria programado o computador para discar o número da morte a cada poucos minutos. Ele mesmo admitiu que não tinha provas. A presidente da DC na época, Jenette Kahn, rejeitou a ideia de que a votação tivesse sido fraudada.
Então fica assim: é boato, sem confirmação. Mas é um boato tão bom que virou parte da lenda.
A morte
Na história, Jason descobre que a mulher que o criou não era sua mãe biológica e parte para o Oriente Médio e a África atrás dela. Na Etiópia, encontra Sheila Haywood, sua mãe de verdade. Só que o Coringa também está lá, e Sheila acaba entregando o filho ao palhaço.
O Coringa espanca Jason com um pé de cabra e deixa os dois num galpão com uma bomba. Batman chega tarde. Na edição #428, ele encontra o corpo do parceiro nos escombros. E, como se não bastasse, na edição #429 o Coringa aparece nomeado embaixador do Irã nas Nações Unidas, com imunidade diplomática. Sim, foi isso mesmo.
As capas da saga, aliás, foram desenhadas por Mike Mignola, que anos depois criaria Hellboy.
O impacto
A morte de Jason mudou o Batman. O herói passou a carregar a culpa de ter falhado com um parceiro, e as histórias ficaram mais sombrias. O traje de Robin de Jason ganhou um lugar de honra numa vitrine da Batcaverna, uma imagem que atravessou décadas e chegou até os filmes.
Em 1989, chegou um novo Robin, Tim Drake, um garoto que tinha descoberto sozinho a identidade de Batman e achava que ele precisava de alguém ao lado.
A volta: Capuz Vermelho

Nos quadrinhos, quase ninguém fica morto para sempre. Em “Sob o Capuz” (Under the Hood, 2004–2006), de Judd Winick e Doug Mahnke, que começa para valer em Batman #635, Jason volta como o Capuz Vermelho, um justiceiro que mata criminosos e quer saber por que Batman nunca matou o Coringa. A explicação para a ressurreição envolve um soco do Superboy-Prime na parede da realidade. Sim, também foi isso mesmo.
A história virou a animação Batman: Contra o Capuz Vermelho (2010), considerada por muitos fãs um dos melhores filmes animados da DC. E, em 2020, a DC lançou uma animação interativa de Uma Morte em Família, em que o espectador escolhe o destino de Jason, uma homenagem direta à votação de 1988.
Opinião: os leitores acertaram?
Aqui vai o nosso palpite de fã, e você pode discordar. A votação foi cruel, mas deu ao Batman um dos seus maiores traumas e criou o Capuz Vermelho, um dos personagens mais interessantes da DC moderna. Se Jason tivesse sobrevivido em 1988, provavelmente seria lembrado como “aquele Robin chato”. Morrendo, virou lenda. E voltando, virou um espelho do que o próprio Batman poderia ser.
Agora, pense: se você tivesse um telefone em 1988, em qual número ligaria?
Perguntas rápidas
Quantos votos teve a votação?
Foram 10.614 votos: 5.343 pela morte e 5.271 pela vida, segundo os números divulgados pela DC.
Em que edição Jason Todd morre?
O ataque do Coringa acontece no fim de Batman #427, e a morte é confirmada em Batman #428, quando Batman encontra o corpo.
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Quatro anos depois, a DC fez outra morte virar notícia mundial. Contamos por que a DC matou o Superman. E se você quer testar se sabe de que editora é cada personagem, encare o quiz Marvel ou DC. E para sair um pouco de Gotham, conheça os quadrinhos nacionais premiados.
Fonte de apoio: verbete “A Death in the Family” na Wikipédia em inglês, com referências às entrevistas de Denny O’Neil e Jenette Kahn.
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